Perigo na web

Celulares e webcams estão facilitando e ajudando a disseminar a exploração e o abuso sexual on-line de crianças e adolescentes a níveis cada vez mais alarmantes. Além de incluir a transmissão ao vivo, os dispositivos móveis também estão sendo usados ​​para atingir, recrutar e forçar meninos e meninas a exercer atividades sexuais. Especialistas em segurança na web afirmam que os números não param de crescer.  O baixo custo financeiro desse empreendimento criminoso — uma conexão à

Internet e um dispositivo móvel ou uma webcam conectada a um computador —  sua natureza de baixo risco, como visto pelo número relativamente pequeno de condenações em âmbito global, e a alta rentabilidade estão impulsionando o rápido crescimento do problema.

O processo de aliciamento das vítimas pode se dar de várias maneiras. Segundo, Rodrigo Nejm, diretor da SaferNet Brasil, associação civil sem fins lucrativos que trabalha na garantia e promoção dos direitos humanos na Internet, um método bastante comum usado por abusadores é se passar por produtores de comerciais, agentes de modelo ou assessores de artistas. Eles fazem os adolescentes acreditarem, por exemplo, que estão participando de testes de propaganda ou concursos para conhecerem seus ídolos.

Dessa maneira, são convencidos a se exporem sexualmente em troca do papel ou prêmio oferecido. O criminoso pede que o menor envie, em determinado momento da conversa, um conjunto de fotos em que esteja nu, com roupas íntimas ou de banho.

Um fato desses ocorreu recentemente com a publicação de um perfil falso de um fã-clube da atriz teen Larissa Manoela no Facebook. Com erros grosseiros de português, era solicitado que a criança mandasse fotos vestida com shortinhos bem curtos de dormir. Quem ganhasse teria direito a brindes e a uma viagem com direito a acompanhante para conhecer a atriz pessoalmente. O caso veio à tona após a tia de uma das vítimas divulgar o ocorrido na mesma rede social.  “Dependendo da idade da criança, ela ainda não tem todo o discernimento para identificar uma conversa suspeita”, relata Nejm. “Ela também tem dificuldade em entender a diferença entre um diálogo com um adulto se passando por uma criança e outro com alguém da sua idade”. E é aí que mora o perigo.

Post falso Larissa Manoela no FB

Um post falso da atriz teen Larissa Manoela atraiu crianças de todo o Brasil que, enganadas, mandaram fotos em roupas de dormir para os abusadores.

Uma outra forma de aliciamento se dá  quando o criminoso finge, por meio de um perfil falso, ser outro jovem. A medida que a conversa avança, ele acaba adquirindo a confiança da criança ou do adolescente, tendo acesso a informações privadas como o endereço da vítima, a escola onde estuda e os nomes de familiares. É com isso em mãos que a ameaça. Em geral, não ocorre o abuso presencial e sim virtual pela distribuição das imagens para redes de exploração sexual comercial.

Tem ainda a extorsão sexual, na qual infratores invadem computadores, coagem, ludibriam ou obtêm de outra forma fotos ou informações incriminadoras de uma criança ou de um adolescente e depois ameaçam divulga- las se a vítima não praticar atos sexuais via webcams.

De qualquer lugar do mundo

Muitas vezes, o infrator se conecta, via Internet, com um cliente que assiste ao vivo a série de abusos praticada contra ela. O abuso se dá em casas particulares, cybercafés ou lan houses. As conexões com possíveis clientes são feitas facilmente uma vez que eles permanecem anônimos e fazem os pagamentos por transferência.

Infelizmente, graças aos grandes avanços da tecnologia, os criminosos podem agir de qualquer lugar do mundo por meio de redes na Internet, conhecidas como darknet, praticamente impossíveis de serem localizadas graças a sistemas aprimorados de criptografia. Redes de tecnologias e plataformas que ocultam endereços IP também têm atrasado ou complicado as investigações

Há relatos de crianças vítimas desse crime principalmente na Colômbia, nos Estados Unidos, nas Filipinas, na Índia, no México e na Tailândia. Quase sempre nuas, elas têm sido exploradas inclusive por vizinhos ou membros da família que alegam não ver mal algum no fato, especialmente nos casos em que não há contato físico direto com a criança.

A questão se torna ainda mais grave quando os próprios jovens colocam imagens de si próprios online como forma de ganhar dinheiro “fácil”.  “O grande problema que estamos vendo no momento é a proliferação de material autoproduzido por crianças”, afirmou Jon Rouse, membro de uma unidade da polícia australiana que combate redes de abuso sexual infantil online. Uma checagem de sete dias em Bangcoc, capital da Tailândia, mostrou mais de 3.600 endereços de Internet individuais compartilhando esse tipo de material. Segundo dados da Organização das Nações Unidas, a demanda por transmissão ao vivo de abuso sexual infantil é um fato crescente na região do rio Mekong, um dos maiores do mundo, localizado no sudeste asiático.

Infelizmente, essa falta de entendimento do impacto psicológico e físico no desenvolvimento de uma infância saudável de crianças e adolescentes ao redor do planeta, associado à cumplicidade dos familiares e ao fácil fluxo de dinheiro, têm contribuído para a prática se tornar cada vez mais crescente.

Apesar desses enormes desafios, governos, organizações internacionais e ONGs estão trabalhando juntos para enfrentar a exploração sexual on-line. Porém, o sucesso na detecção e o processo penal dos criminosos requer habilidades investigativas avançadas em crimes online, treinamento especializado para promotores, procuradores e juízes, cooperação entre fronteiras em aplicação da lei e atendimento especializado para as vítimas infantis só para citar alguns exemplos. À sociedade civil cabe sempre o recurso da denúncia que é mais um importante  componente ao combate de um mal tão tenebroso.

Para fazer a sua parte: Disque 100 ou acesse o hotsite da SaferNet que já contabiliza mais de 3,8 milhões de denúncias.

Por Carla Leirner

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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